verdades escondidas da acupuntura

Verdades escondidas da acupuntura

Nuno Lemos TEXTOS LIVRES 0 Comments

Protocolos de acupuntura pequenos para tonificar e protocolos grandes para dispersar

 

Entre verdades escondidas da acupuntura esta depara-se como a mais generalizada nos acupuntores ocidentais. Uma outra verdade que anda pelas bocas do mundo parece ser derivada mais da imposição da autoridade do que de interesses económicos tal como acontecia com as verdades absolutas da acupuntura. O problema em não saber colocar em causa aquilo que aprendemos é que se acaba por aceitar tudo o que nos é dito como verdades. Neste caso e como não são apoiadas por nenhum fundamento técnico preferi chamar-lhes verdades escondidas da acupuntura.

Esta verdade escondida, e que alguns gurus de muitas escolas de pensamento, adoram propalar consiste em definir o tamanho do protocolo de acordo com o desejo de se tonificar ou dispersar. Ou seja tratar padrões de plenitude ou de vazio.

O conceito de tonificar diz respeito a um determinado conjunto de ações capazes de fortalecer o individuo na presença de determinados sintomas. Sintomas esses classificados em padrões de deficiência (vazio de qi, vazio de yin, etc…). Obviamente que dispersar diz respeito a um determinado conjunto de ações com o objetivo de tratar sintomas classificados em padrões de plenitude.

 

Os chineses também não aprenderam estas verdades escondidas da acupuntura

 

Tal como muitas outras verdades escondidas da acupuntura no ocidente, os chineses parecem ter-lhes passado completamente ao lado. Da mesma forma que nunca aprenderam que no máximo só poderiam usar 10 pontos de acupuntura também nunca aprenderam que só podiam usar protocolos de acupuntura pequenos para tonificar e grandes para dispersar.

Mais uma vez me irei refugiar em exemplos retirados das elites das melhores universidades chinesas. De acordo com a universidades de Beijing, no tratamento de dor epigástrica por agressão ao estômago proveniente da estagnação de qi do fígado podemos usar o seguinte protocolo:

6MC, 14F, 3F, 12VC, 36E

Parece um pouco pequeno para um protocolo que se pretende dispersar. Afinal de contas falamos de um padrão de plenitude.

No padrão clínico seguinte, um vazio de qi com estase por frio usa-se 6 pontos:

12VC, 6VC, 20B, 6MC, 4BP, 36E

Nada mau. Para um protocolo de plenitude usam-se 5 pontos. Para um protocolo de vazio de plenitude usam-se 6 pontos. Mas afinal de contas não deveriam ter diminuído?

Alguns leitores poderão contestar o que escrevi uma vez que falamos de um protocolo associado para vazio e plenitude. Ok. Vamos continuar com exemplos. A mesma equipa de especialistas para o vómito referem o protocolo geral:

12VC, 6MC, 36E, 1R

De seguida aconselham a adição de 2 pontos para tratar vómitos por invasão de vento externo (plenitude), aconselham 2 pontos para vómitos por estagnação de alimentos (plenitude) e aconselham a adição de 2 pontos para tratar vómitos por deficiência do baço e do estômago. Ou seja, o mesmo número de pontos seja para tratar padrões de plenitude ou deficiência.

E o que vale para os vómitos vale para tratamento da obstrução urinária e uma série de outros problemas. E o que vale para a universidade de Beijing vale para Shangai ou Nanjing. Os melhores acupuntores dessas universidades parece não terem aprendido verdades tão simples quanto aquelas ensinadas nas escolas de acupuntura de muitos países ocidentais.

Mais uma vez a universidade de Nanjing segue a linha da Universidade de Beijing e não liga nenhuma ao tamanho dos protocolos de acordo com o tipo de padrões. Usando o mesmo exemplo já referido do tratamento de asma, na obra Chinese Acupuncture and Moxibustion temos como prescrição base:

13B, DIANGCHUAN, 22VC, 1P, 17VC, 6P

Mucosidade-calor: 14VG, 40E

Vazio de qi do Baço e Pulmão: 20B, 43B, 6VC, 36E

Vazio de yin do pulmão e rim: 23B, 4VC, 3R, 6BP

Vazio de yang do coração e rim: 15B, 23B, 6VC, 4VC, 6MC

Ou seja, todos os protocolos para deficiência (os 3 últimos apresentados) possuem um maior número de pontos de acupuntura em comparação com a prescrição para tratar o padrão de plenitude (mucosidade-calor). Exatamente o contrário das nossas verdades escondidas da acupuntura propagandeadas no ocidente.

 

A origem do problema

 

A medicina chinesa tem uma componente clinica que se encontra sujeita a uma leitura filosófica. O problema em definir objetivamente o valor dos tratamentos em medicina chinesa consiste exatamente em saber fazer a diferenciação entre filosofia e empirismo clínico.

Os aperfeiçoamentos a que se elevam as técnicas de manipulação de agulhas são um exemplo claro da filosofia a sobrepor-se ao aspeto clinico. Rodar 3 vezes para a direita ou para a esquerda vai ter mesmo um efeito de tonificação ou sedação da agulha? Será mesmo necessário inserir em primeiro lugar 0 3ID e só depois o 62B para abrir determinado meridiano maravilhoso?

Quando não sabemos separar a filosofia da clinica acabamos por definir verdades escondidas da acupuntura que aos olhos do senso comum parecem um pouco idiotas. Se queremos ter uma noção aproximada da fronteira existente entre filosofia e clinica na medicina chinesa temos de nos afastar da mesma e olhar para a sua generalidade e nunca focar atenção nos pormenores. Perder o enquadramento geral da MTC leva muitas vezes a ideais e verdades escondidas muito pessoais.

As verdades escondidas da acupuntura não são mais do que o reflexo da ignorância disfarçada de conhecimento tem na comunidade de acupunctures ocidentais. Um total desfasamento dos conhecimentos técnicos, um afastamento da objetividade clinica e o estabelecimento de verdades escondidas da acupuntura com base num supostos prestígio social de poucos e total ausência de auto-crítica de muitos.

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