terapeutas não convencionais

5 erros convencionais dos terapeutas não convencionais

Nuno Lemos TEXTOS LIVRES 0 Comments

Nada melhor que a experiência do dia a dia para enriquecer os exemplos daquilo que devemos ou não devemos fazer. Ao longo dos anos fui observando alguns erros por parte de colegas terapeutas não convencionais que achei relevantes pois em determinada altura notei que muitos desses erros eram recorrentes e estavam associados a crenças e à forma como os terapeutas não convencionais preferem olhar o mundo. Alguns erros são de origem ideológica, outros de origem financeira, etc…
Este artigo pretende chamar a atenção dos terapeutas não convencionais mais novos para este erro para que eles não os cometam.

5 erros convencionais dos terapeutas não convencionais

Colocar o lucro à frente da honestidade

Um erro cometido por alguns profissionais, especialmente em períodos de crise ou em início de carreira. É mais comum nestes momentos porque é a altura em que têm menos doentes.
O lucro é essencial para a nossa sobrevivência mas até que ponto é que deverá ser o lucro a única coisa importante? Não seria preferível por vezes desencaminhar um doente para outro profissional que sabemos o consegue tratar? Ou ser honesto e indicar que não acreditamos no valor clinico de determinado tratamento?
Há uns anos falei com alguns acupuntores que não acreditavam no uso da acupuntura para deixar de fumar. Uns deixaram de aplicar esses tratamentos porque não acreditavam neles, outros continuaram a usá-los porque era uma forma fácil de ganhar dinheiro, mesmo quando não acreditavam nem tinham sucesso clínico.
Será útil aceitarmos pacientes que sabemos não conseguir tratar e assim aumentar a taxa do nosso insucesso clínico? Que impacto terá na mente do terapeuta sucessivos casos de insucesso ou a venda constante de um produto que não acredita funcionar? Seria preferível ter clientes a dizerem que somos honestos ou ter doentes a dizer que não os conseguimos tratar?
Achar que o lucro imediato é preferível à construção de uma marca credível (o nosso nome) é um erro que alguns terapeutas não convencionais só se apercebem tarde demais.

Não dar importância ao paciente

Vi os problemas que esta filosofia provoca tanto a nível do crescimento profissional dos terapeutas como da confiança dos doentes. Muitas vezes, o próprio terapeuta não se apercebe que tira relevância à história do paciente ou às suas queixas. Tem tudo a ver com crenças.
Se alguns terapeutas acreditam que todos os sintomas tem uma componente mental e vão fazer a consulta já com diagnósticos pré-definidos (vazio de qi do baço ou estagnação de qi do fígado), acabam por serem incapazes de dar atenção à história do paciente e de perceber quais os sintomas mais importantes e o que vale mesmo a pena tratar.
Lembro-me há uns anos de ver uma colega fazer o diagnóstico a uma paciente que tinha ciática e a única coisa que a minha colega queria saber era como a morte de um gato há 6 meses atrás tinha influenciado a ciática (não tinha!). Um diagnóstico que deveria ser fácil tornou-se uma espera morosa à procura de um santo graal que pudesse justificar um qualquer bloqueio emocional de qi. A única razão pela qual a paciente não teve de passar por tratamentos inúteis para regular energias e recebeu um tratamento para a ciática foi porque estava lá um chato que prefere cães a gatos.
E por falar em energias leva-me para outra história onde um paciente recorreu a uma clinica para tratar dor de costas. A terapeuta refere-lhe que era preciso regular as energias para tratar dor de costas e começou a fazer um tratamento que não contemplava sequer as costas. Ao final da terceira consulta sem qualquer resultado, o paciente irritado, decidiu abandonar aquela terapeuta por outra. A conclusão da história? O paciente era maluco e sofria de uma estagnação de qi do fígado.

Achar que os médicos são os nossos inimigos

Institucionalmente irão sempre existir quezílias entre médicos e outros profissionais de saúde. Muitas TNC estão na primeira linha dessa batalha e isso não vai deixar de acontecer.
Mas achar que os médicos são nossos inimigos porque existem esses choques institucionais, ou interesses profissionais, é um erro. No dia a dia os médicos são os maiores amigos dos acupuntores. São eles quem mandam doentes. Cada vez mais médicos aconselham os pacientes a fazerem acupuntura. Recentemente uma associação médica norte-americana aconselhou a acupuntura como primeira linha de tratamento na lombalgia. Melhor publicidade que esta é impossível.
A construção de um nome credível e a capacidade de dialogar com médicos (assim como outros profissionais de saúde) é essencial para o crescimento da clínica. Um erro que muitos terapeutas cometem, pois ao longo dos anos perderam imensas hipóteses de capitalizarem uma relação profissional muito vantajosa.
A Ordem dos Médicos pode ser inimiga da classe dos acupuntores mas os médicos, pela relação de confiança e credibilidade que se forma, podem ser os nossos melhores amigos. No dia a dia um dos maiores interesses do médico é ter um grupo de profissionais credíveis e confiantes a quem ele possa encaminhar doentes e ver resultados.

Não dar importância à metodologia e conhecimento científico

Este é dos maiores erros que tenho observado ao longo dos anos. Afeta a nossa capacidade de crescer profissionalmente, diminui a capacidade de auto-critica do nossos trabalho, afeta a qualidade do serviço que prestamos ao doente e dificulta o diálogo com outros profissionais de saúde.
Muito se poderia dizer sobre a importância da ciência nestas áreas mas uma comparação simples consiste somente em comparar a evolução que se observou na chamada “acupuntura médica” nos últimos anos.
A acupuntura médica começou com discursos esotéricos sobre energias yin e yang e poucos anos depois tinha um sistema montado de acupuntura neurofuncional. Tudo isto em menos de 10 anos. Os acupuntores há 40 anos que falam em energias. Depois de 40 anos não mudaram nada. Houve um aumento enorme de investigação científica, estudos de sinologia, história da medicina chinesa, inovações tecnológicas que passaram completamente ao lado dos acupuntores.

Lembro-me há uns anos de ser convidado para participar de um conjunto de palestras numa escola de medicina chinesa. Na altura tinha acabado a minha tese de licenciatura em Medicina Nuclear sobre fitofármacos radioprotetores e achei por bem falar sobre isso. É um assunto recente onde o estudo das farmacopeias tradicionais se associa com investigação de ponta em biologia molecular em estudos pré-clínicos que estão a oferecer um conjunto de informações extremamente valiosas. Quase ninguém falava sobre isso na altura. Era algo novo e muito interessante. Mas por ser muito científico foi-me pedido que falasse sobre outra coisa.

Achar que não tem de mudar nada para comunicarem com outros profissionais de saúde

Os osteopatas não tem este problema. A sua linguagem biomecânica impressiona qualquer profissional de saúde. Os homeopatas também não tem este problema mas porque a sua linguagem não engana nenhum profissional de saúde. No entanto a medicina chinesa tem este problema.
Ao longo dos anos os especialistas de medicina chinesa sempre acharam que não tinham de falar nenhuma linguagem científica; que os vazios de yin e estases de sangue era suficientes; que as energias eram superiores ao cartesianismo cientifico. Ou seja, não conseguiram criar pontes de diálogo vantajosas com médicos e outros profissionais de saúde.
Há alguns anos usei a analogia do contacto com uma espécie extra-terrestre. A melhor forma de contactar com outras espécies é através da linguagem universal: a matemática. E qual é a linguagem universal da medicina? O sintoma.
Os acupuntores passaram anos a falar de energias imaginárias e termos chineses que nunca compreenderam e nunca se deram ao trabalho de abordar a medicina chinesa pela linguagem universal de qualquer medicina e dessa forma capitalizar com o diálogo construtivo com outras profissões.

Conclusão sobre os erros dos terapeutas não convencionais

Ao longo dos anos vim-me apercebendo de algumas coisas boas e outras tantas más analisando o comportamento dos meus colegas e o meu. Fui tentando usar isso de forma a conseguir criar a minha imagem de marca, de forma a tentar desenvolver a minha carreira da forma mais profissional e ética que para mim seria possível.
Escrevo sobre alguns destes erros pois são importantes para a próxima geração de terapeutas não convencionais. O nosso nome é a melhor imagem de marca que podemos ter; o raciocínio clínico deve ser focado nos sintomas do paciente e não em diagnósticos pré-definidos; é a história do paciente que conta e não as nossas crenças; o diálogo construtivo com outras profissões de saúde é essencial para o crescimento profissional de um terapeuta e para o seu reconhecimento; devemos estimular o contacto com outros profissionais de saúde usando linguagem que seja compreendida por todos; a base de qualquer prática clinica deve ser a ciência, a metodologia científica deveria ser a base do nossos pensamento.
Guardem estas conclusões, são importantes para o vosso futuro.

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