PENSAMENTO CHINÊS

Pensamento chinês: 3 bases cruciais

Nuno Lemos HISTÓRIA E CULTURA CHINESA 0 Comments

Introdução ao pensamento chinês

A maioria das pessoas aborda a Medicina Chinesa sem compreender 3 aspetos fulcrais do pensamento chinês. Muitos erros e más interpretações da medicina chinesa advêm do desconhecimento destes factos. Os 3 aspetos que eu creio cruciais explicar são: noção de micro-macrocosmos; (2) norma na cultura chinesa e (3) poesia. Vamos analisar cada um deles em separado.

 

Microcosmos-macrocosmos no pensamento chinês

As leis que regem o corpo são as mesmas que regem a natureza. Uma vez que o corpo se encontra inserido na natureza ele não é mais que um pequeno microcosmos. Todas as observações e pensamentos dos chineses estão focados neste pensamento.

Qualquer observação feita a partir da natureza deve ser entendida nesta perspetiva. Historicamente foi este pensamento que limitou a cultura chinesa de se desenvolver e de criar uma medicina mais baseada na clinica do que na filosofia. É também por causa deste pensamento que muitas vezes temos dificuldade em separar uma análise puramente clinica de uma análise onde filosofia e clinica se misturam. É possível dar vários exemplos deste pensamento.

Na acupuntura tradicional chinesa existem pontos regulares e pontos extra. Os pontos regulares possuem uma localização específica, indicações clinicas bem definidas e pertencem a um sistema de vasos longitudinais. Os pontos extra são idênticos aos pontos regulares com a diferença que não pertencem a sistema de vasos longitudinais. Existem imensos pontos extra que ficam no percurso de vasos longitudinais (yintang no vaso governador, dannagxue no vaso da vesícula biliar, etc…). Qual a razão pela qual eles não pertencem então a esses vasos longitudinais? Tem indicações idênticas aos pontos daquele meridiano e a localização coincide.

A razão não é clinica nem científica. Tem a ver com a noção de microcosmos-macrocosmos dos chineses. Como o corpo é um reflexo do macrocosmos este deve imitá-lo. Tem 4 membros que correspondem às 4 direções cardinais. Tem 364 pontos de acupuntura regulares que correspondem aos 364 dias do ano. O macrocosmos expressa-se no microcosmos.

A razão pela qual existem 12 vasos longitudinais também não é clinica nem científica. Está relacionado com os 12 rios principais da China. O vaso longitudinal é visto como um rio que atravessa o império e faz as suas diferentes províncias comunicar entre si. Existem outras fontes históricas que parecem indicar os 12 vasos longitudinais com os 12 meses do ano.

Também podemos observar este pensamento na forma como se constrói uma fórmula de matéria médica. Primeiro usa-se a droga imperadora, depois a ministra e assim sucessivamente. A forma de construir uma fórmula de matéria médica representa a divisão da corte imperial da dinastia Song.

Outro exemplo que se pode usar está relacionado com as descrições anatómicas que os chineses fizeram do corpo humano. As primeiras descrições são fabulosas para o período em que foram feitas e mostravam um império com conhecimentos avançados para a sua época. Mas as descrições posteriores afastaram-se cada vez mais da descrição real do corpo humano.

Isto deve-se ao facto dos chineses terem adaptado as descrições do corpo humano (por exemplo, eles nunca representam músculos em comparação com os trabalhos de >Leonardo da Vinci, por exemplo, onde os músculos estão representados) à sua noção de micro e macro-cosmos. O corpo era um reflexo do império. Os órgãos eram uma correspondência entre partes do império. Os meridianos eram os caminhos que permitiam o contacto entre o império, etc… Ou seja o coração e outros órgãos começaram a ser representados de acordo com a sua correspondência ao império chinês.

 

O pensamento chinês é normativo: a importância da norma

A maioria das pessoas quando fala de medicina chinesa começa por falar de um conjunto de energias que existem no corpo. A noção que existem energias no corpo nada tem a ver com a medicina chinesa. Isso é um reflexo da cultura ocidental. A cultura ocidental é uma cultura dualista onde ciência e religião são campos duais do pensamento humano, onde energia e matéria chocam. Os conceitos de energia, usados no ocidente, são conceitos vitalistas decorrentes das guerras filosóficas setecentistas de vitalismo versus mecanicismo e que foram adaptados pelos meios new age no século XX. Mais uma vez vamos abordar vários exemplos:

O conceito de doença é capaz de ser o mais óbvio. A doença para os chineses decorre do desequilíbrio que surge entre microcosmos e macrocosmos. O macrocosmos tem determinadas leis. Se o ser humano (microcosmos) não se adaptar a essas leis então surge a doença. Ou seja, para os chineses a doença é a violação da norma da natureza. É a violação da lei.

Não só a medicina chinesa está assente neste principio como toda a cultura chinesa. As teorias do yin-yang ou dos 5 movimentos são usadas tanto na medicina tradicional chinesa, como no feng shui ou na análise que os chineses fazem da sua história ou das relações internacionais. Condiciona todo o pensamento chinês.

Este conceito de norma serve tanto para explicar algo como para definir a ação da pessoa. Sem estas noções da importância da norma na medicina chinesa ninguém será capaz de a compreender. Por exemplo o que significa a afirmação: “existe um desequilíbrio yin-yang”. É a explicação mais simples para a doença mas é algo tão vago que se perguntarem a um acupuntor ocidental o que significa ele vai tentar falar em energias para explicar aquilo que não compreendeu.

A noção de desequilíbrio yin-yang não só faz referência à violação da norma como define a norma de ação para o diagnóstico. Por isso existem os 8 principios de diferenciação de síndromes. Os 8 princípios são: diferenciação entre yin e yang, diferenciação entre frio (yin) e calor (yang); diferenciação entre interior (yin) e exterior (yang) e finalmente a diferenciação entre vazio (yin) de excesso (yang).

Ou seja a noção de desequilíbrio yin-yang não é algo puramente explicativo ou descritivo. É sim uma forma de explicar uma causa e simultaneamente definir a norma de ação para se estudar, compreender e tratar essa causa.

Se se reparar todo o processo de diagnóstico, definição de princípios terapêuticos e elaboração das terapêuticas selecionadas não é mais do que um jogo complexo de normas a ser seguidas. O diagnóstico tem normas muito próprias como já vimos. Os princípios terapêuticos vão dar objetividade às terapêuticas. A forma de construir uma fórmula ou um protocolo de acupuntura está estruturado dentro de uma série de normas bem definidas.

Outro exemplos, que não serão explorados, mas demonstram bem a importância da norma estão relacionados com as normas de construção de um protocolo de acupuntura (combinação e classificação de pontos) e com a formulação do sistema de cun.

 

Poesia é o culminar do pensamento chinês

A componente poética é essencialmente estética. É fulcral no pensamento chinês e está em todos os cantos da medicina chinesa.

Esta componente estética será mais facilmente compreendida por matemáticos. Os matemáticos consideram determinadas equações e teorias mais bonitas que outras. Isto tem a ver com as regras que definem essas teorias e a forma como elas permitem criar lógica. Quem criou as primeiras teorias de acupuntura foram matemáticos e não clinicos.

Para os chineses todas estas áreas estavam interligadas. Os matemáticos conseguem compreender o funcionamento do macrocosmos e transformar isso num conjunto de normas a ser aplicado no microcosmos. Daí, a cronoacupuntura, ser tão importante na tradição chinesa.

A grande diferença entre livros de acupuntura chineses e ocidentais é que os ocidentais nunca perceberam a importância das normas na construção de um protocolo de acupuntura, nem nunca conseguiram admirar a beleza que daí surge. Basta o leitor fazer uma comparação simples entre livros técnicos de acupuntura chinesa escritos nas unievrsidades chinesas e escritos por autores ocidentais.

 

Conclusão sobre as bases do pensamento chinês

Sem termos noção da primazia cultural do conceito de macrocosmos-microcosmos, da importância da definição da norma e da forma como tudo isso se conjuga numa ação/teoria com contornos esteticamente apelativos nunca iremos compreender a medicina chinesa, nem os seus potenciais clínicos ou limitações filosóficas.

Mas pelo menos muitos de nós irão falar em energias….

 

 

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