Licenciaturas fim de semana: valerá a pena o esforço?

Nuno Lemos CURSOS DE ACUPUNTURA 1 Comment

Muitas pessoas ficam indignadas comigo pelas minhas criticas a licenciaturas fim de semana em medicina chinesa. Escrevo estas linhas não para ofender nenhum leitor mas para nos fazer pensar sobre o tipo de investimento que fazemos na nossa vida.

Fazer licenciaturas fim de semana tem custos

As licenciaturas fim de semana, por muito baratas que fiquem, vão ultrapassar facilmente os 3000 euros em propinas. Depois há dinheiro gasto em livros, transportes, tempo dispendido a estudar, etc… Ou seja por muito barato que pareça ao início, na realidade vai ficar caro com o tempo.

Muitas vezes, devido às falhas constantes encontradas nos diversos cursos, os alunos veem-se obrigados a fazer formações extra de diagnóstico, acupuntura, matéria médica, etc… para tentarem compreender e aprender matérias que deveriam ter ficado bem soldadas na licenciatura.

Estes cursos mais pequenos acabam por sair mais caros no global. Facilmente o aluno gasta largas centenas de euros num único ano e pela forma como surgem estas formações secundárias tudo indica que existe uma grande procura das mesmas.

O dinheiro gasto tem de ser rentabilizado

Não tem lógica, na perspetiva do aluno investir milhares de euros em licenciaturas fim de semana e depois não os rentabilizar com os conhecimentos adquiridos nessa licenciatura. Centenas de horas numa sala de aula ou a estudar em casa só tem lógica se depois se transformarem em tempo clinico com pacientes reais.

As pessoas não gastam milhares de euros e perdem imenso tempo a estudar determinadas matérias para depois não conseguir fazer nada. O investimentop na formação é um ponto de partida para algo construtivo e não uma forma leviana de passar o tempo.

A confiança é essencial

A confiança com que um acupuntor está em frente a um paciente é essencial para o seu sucesso e para definir a sua capacidade de lidar com o desconforto que a acupuntura provoca em alguns pacientes. A acupuntura consiste na puntura de agulhas no corpo humano. Isso acarreta riscos para a saúde do paciente e do terapeuta. Implica bons conhecimentos de anatomia. Exige horas de prática. São todos estes fatores que vão fazer com que um acupuntor se sinta calmo e confiante quando insere agulhas no paciente.

Existem escolas que proíbem a puntura em determinadas regiões do corpo porque são áreas proibidas quando na realidade são os prórpios professores das escolas que não sabem punturar ou não tem confiança nas suas formações. Há algo de muito errado quando um aluno meu de cursos de acupuntura para fisioterapeutas com menos de 100 horas tem mais à vontade para punturar que um licenciado em acupuntura. Quando esse fisioterapeuta consegue tratar problemas com acupuntura que acupuntores profissionais não conseguem. Há algo de muito errado e isso tem a ver com confiança e conhecimento.

Diferentes técnicas obtêm diferentes resultados e isso é essencial para o sucesso clinico. Quando é que devemos fazer uma puntura superficial? E uma puntura profunda? Quando devemos pensar de acordo com acupuntura neurofuncional? E em pontos gatilho? Etc…

Faz acupuntura quem tem confiança e não quem gastou dinheiro

Há uns anos atrás alguns alunos da APA-DA protestavam num forum por algumas alterações colocadas no curso de fim de semana que frequentavam. A alteração que mais celeuma provocou estava relacionada com a obrigatoriedade de análise de um paciente por ano. Antes desse ano (2007 se não estou em erro) os alunos faziam o curso todo sem ver um único paciente.

Nessa mesma altura lembro-me de ver o caderno de estágio de uma aluna minha da ESMTC e de notar que nesse ano ela tinha observado 80 pacientes. Ou seja, nas licenciaturas fim de semana da APA-DA (atualmente vendidos como cursos da UMC) seriam necessários 80 anos para ganhar a prática que aquela aluna ganhou naquele ano.

Alunos com dezenas (em alguns casos centenas) de pacientes vistos ao longo do curso acabam o mesmo e sentem medo e insegurança quando começam a prática clinica sozinhos. Alguns não se dão nada bem. Como será para profissionais que não tiveram quase prática nenhuma? Que nunca ultrapassaram o medo de inserir agulhas? Cujos primeiros pacientes tiveram reações fortes e inesperadas à acupuntura?

Ao longo dos anos tenho observado que a maioria dos alunos dos cursos de fim de semana acabam por ter uma prática pouco frequente (com alguns familiares e amigos), alguns acabam cursos sem nunca terem feito acupuntura e com medo de exercer a profissão que pagaram para aprender.

A maioria acaba por desistir da área ou tratá-la como um pequeno hobbie sem qualquer relevância económica ou profissional. E a minha questão é simples: será que valeu a pena tantas ilusões iniciais de clinicas cheias de doentes e curas milagrosas? O dinheiro gasto e não compensado nos cursos? As horas de estudo, na maioria das vezes mal direcionado, perdidas sem qualquer benefício em termos de capacidade de tratar pacientes ou conseguir manter uma clinica?

O que é preferível: gastar 20 mil euros e exercer ou gastar 3000 e não fazer nada a seguir?

Conclusão sobre investimentos em licenciaturas fim de semana

Muitos alunos apaixonam-se por escolas que prometem muito a troco de pouco. Licenciaturas em part-time ao longo de 2 anos, licenciaturas com ensino personalizado, preços baixos, pouco exigência curricular. O sonho de poder ter uma profissão que toque nas vidas das pessoas, que nos permita autonomia, respeito e carinho, à primeira vista torna-se acessível a qualquer pessoa.

Não tem dinheiro para pagar escolas mais caras? Agora há escolas baratas. Uma licenciatura de 4 anos é muito tempo? Fazemos em 2 anos. Não consegue fazer uma licenciatura a tempo inteiro? Temos cursos noturnos. Não consegue fazer cursos noturnos? Temos licenciaturas fim de semana! Não tem muitos fins de semana livres? Fazemos licenciaturas fim de semana uma vez por mês! Não lhe dá jeito a deslocação? Fazemos licenciaturas online… and so on!

Com escolas mais baratas vem professores mais incompetentes e sem experiência, com cursos cada vez mais simples em termos de prática e conhecimento vem uma insegurança e ignorância crescentes por parte do profissional. E no final temos de fazer a pergunta: valerá a pena fazer um investimento do qual não posso ter nenhuma compensação razoável?

Comments 1

  1. Bom dia Nuno,

    Espero que me consiga ajudar.
    Sou fisioterapeuta e queria alargar os meus horizontes no tratamento dos meus utentes e, como tal, pensei em tirar um curso de Medicina Chinesa.

    Trabalho a tempo inteiro como fisioterapeuta e, como é fácil de entender, não posso deixar de trabalhar para tirar um curso diurno durante um período tão alargado. Li vários posts seus e respectivos comentários acerca dos cursos de fim-de-semana e compreendo que a opinião seja que, comparando com a carga horária de um curso diurno, a carga de um pos laboral é inferior – o que, provavelmente irá limitar o tempo de matéria dada e a possibilidade de tirar dúvidas com os docentes. Porém no meu caso é-me completamente impossivel investir num curso diurno.

    Assim sendo, existe alguma escola que acha que tenha um curso pós laboral mais completo possível? Será que, quando me deparar com um utente o consiga avaliar usando um raciocínio de medicina chinesa? Pu o melhor será mesmo não investir numa formação nesta área porque trabalho durante o dia?

    Tomei conhecimento de uma escola (IMT) que lecciona um curso 2/3 fins-de-semana por mês e com estágios observacionais e práticos incluidos a partir do 2o ano, Acha que continua sem ser um bom investimento?

    Outra questão que lhe queria colocar é em relação à legislação: será importante esperar por estas areas serem aceites? Será que os formandos com esses cursos pos laborais serão considerados profissionais com direito a cédula após a legislação see aceite?

    Em relação ao estágio na China: o que percebi é que o esse estágio é importante para ter um documento equivalente à licenciatura por uma universidade de medicina chinesa?

    E agora sobre os cursos feitos por empresas de Fisioterapia: será que no meu caso seria vantajoso um curso desses? Devo admitir que sou um pouco renitente em relação a esse tipo de formações por serem dadas com tao pouca carga horária – principalmente devido a falta de raciocínio clínico que me parece muito distinto nas duas areas. Será que é bom como apenas mais uma ferramenta de trabalho para um fisioterapeuta? E aqui em relação à legislação, é permitido um fisioterapeuta estar a praticar acupunctura?

    Obrigada pela sua disponibilidade (espero que tenha coragem para ler o texto todo)

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