inovações clinicas meridianos e acupuntura

Inovações clinicas e meridianos

Nuno Lemos PONTOS GATILHO E ACUPUNTURA, SISTEMA NERVOSO, TEXTOS LIVRES 0 Comments

Introdução sobre inovações clinicas e meridianos

Ultimamente fala-se muito da associação entre fascia e vasos longitudinais (conhecidos como meridianos) de acupuntura. Poderá a fascia ser a base anatómica do sistema de vasos longitudinais desenvolvido pelos chineses ao longo de milhares de anos?

Poderá a acupuntura chinesa conhecer um novo revivalismo com o estudo da fascia humana e a sua relevância clinica?

Quando olhamos para a história vemos que todas as décadas surgem novas modas, novos conhecimentos e que todos eles supostamente se adaptam ao sistema de meridianos. Se assim é porque deixaram de ser relevantes? O que diferencia a fascia para a acupuntura chinesa de outras estruturas anatómicas como o sistema nervoso?

Acupuntura e sistema nervoso

Nos anos 80 estava na moda afirmar-se que o sistema nervoso era a base anatómica do sistema de meridianos. Inclusivamente chegaram-se a fazer estudos de medicina nuclear para estudar o percurso do sistema de meridianos.

inovações clinicas sistema nervoso

O nervo cubital corresponde ao percurso do meridiano do coração e intestino delgado no membro superior. Estes meridianos são acoplados na acupuntura chinesa.

As semelhanças são mais que evidentes: o meridiano da bexiga segue o trajeto do nervo ciático na coxa e do nervo sural na perna e pé. O meridiano do Estômago corresponde ao nervo peroneal profundo na perna, o meridiano do Rim corresponde ao percurso do nervo tibial na perna e pé.

No entanto com o tempo estas correspondências acabaram por se tornar irrelevantes. Isto porque numa análise mais profunda todos tiveram de admitir que apesar destas semelhanças não existe nenhum nervo que corresponda ao percurso total do meridiano do Rim ou do Baço ou da Bexiga ou de qualquer outro meridiano.

E ninguêm na comunidade científica ocidental vai abandonar o sistema nervoso pela teoria dos meridianos.

Acupuntura e pontos gatilho

Nos anos 70 começou a falar-se da associação de pontos gatilho e acupuntura através dos trabalhos de Simon e Travells. No final dos anos 90 e principio de 2000 surgiram cursos e artigos a associar a acupuntura chinesa com pontos gatilho. Era comum descobrirem-se pontos gatilho que correspondiam à localização de pontos de acupuntura tradicional e mais importante… o seu trajeto de dor referida correspondia ao percurso do meridiano. Estas observações colmatavam muitas das falhas existentes entre o sistema nervoso e a teoria dos vasos longitudinais.

Essas associaçôes acabaram com duas correntes: uma mais cientifica que culminou com o tratamento dos pontos gatilho com a nova denominação da moda “punção seca” a substituir a acupuntura (credibilidade pela demagogia) e outra mais tradicionalista onde os pontos gatilho eram tratados como pontos ashi (mais uma forma de credibilidade pela demagogia) na acupuntura tradicional chinesa.

inovações clinicas pontos gatilho

Na imagem B épossível observar que pontos gatilho no músculo ECM provocam cefaleia frontal. O músculo ECM é passado por pontos do meridiano do Estômago e uma das funções deste meridiano é tratar cefaleia frontal. Na imagem C é possível observar pontos gatilho no trapézio com zonas de dor referidas semlhante ao percurso do meridiano do vesícula biliar na cabeça. Na imagem D temos relações com meridiano da Bexiga. Estes são alguns exemplos. Como mostrei noutro artigo usando várias influências clínicas (sistema nervoso, pontos gatilho) é possível construir o meridiano da vesicula biliar.

Acupuntura e fascia

Agora é a vez da fascia. De um momento para o outro parece que as associações encontradas entre os meridianos e sistema nervoso já não tem relevância. O meridiano do rim é o percurso do nervo tibial mas de alguma forma essa simples associação visual saiu de moda. O ponto 21 do meridiano da VB está localizado na área de um ponto gatilho cujo percurso de dor na cabeça corresponde ao percurso do meridiano da vesicula biliar na cabeça. Mas de alguma forma isso perdeu relevância.

Inovações clinicas fascia

Associação entre fascia humana e vasos longitudinais (meridianos)

Descobrimos que afinal os meridianos tem uma base anatómica. Essa base é a fascia. Entrevistas com fisioterapeutas importantes como Luiggi Stecco, criador do método Fascial Manipulation falam abertamente da associação da fascia com os vasos longitudinais da acupuntura chinesa.

E existem associações muito interessantes entre linhas fasciais do membro superior e os respetivos meridianos. O que falha então nesta associação?

As analogias anatómicas com a fascia sofrem dos mesmos problemas que sofriam as comparações com o sistema nervoso e os pontos gatilho. Existem algumas correspondências à primeira vista que não conseguem esconder as múltiplas desigualdades numa observação mais cuidada.

A fascia e o sistema nervoso

A fascia apresenta vantagens comparativas com o sistema nervoso pois a semelhança do seu percurso não está limitada a uma parte dos membros. Essa é uma grande vantagem anatómica.

Mas a fascia está rodeada de incertezas que o sistema nervoso não tem. O percurso do sistema nervoso é bem conhecido mas as principais rotas fasciais são muito discutidas.

A vantagem longitudinal que a fascia apresenta nas comparações com o sistema de meridianos perde-as na incerteza do seu percurso ou da sua descrição. É muita incerteza. Muita diferença para se afirmar tão categoricamente que é a base anatómica do sistema de meridianos.

Entre influências clinicas e subversões culturais

Os meridjanos receberam várias influencias clinicas mas todas elas foram enquadradas em teorias definidas por moldes culturais muito especificos.

As primeiras descrições de pontos gatilho encontram-se na literatura chinesa mas nao há nenhuma teorização dos fenómenos fora do contexto dos meridianos.

Existem observações clinicas na construção da teoria dos meridianos e por issos e compreende que nas mesmas teorias se consigam encontram paralelismos com sistema nervoso, pontos gatilho ou fascia.

Mas a teoria dos meridianos é, em última análise uma construção social definida por modles filosófico e não anatomo-fisiológicos. Os 12 meridianos de acupuntura correspondem aos 12 principais rios… ou seja os vasos longitudinais representam os principais percursos do corpo humano que serve de analogia para o império chinês. O númerod e dias do ano foi usado para definir o número de pontos de acupuntura que pertencem ao sistema de meridianos. Por outras palavras as múltiplas observações clínicas usadas para construir o sistema de vasos longitudinais foram sujeitas a uma interpretação filosófica desfasada da realidade clinica.

A maior subversão cultural está ainda na leitura ocidental desses vasos longitudinais que passaram a ser erradamente conhecidos como meridianos que transportam uma qualquer espécie de “energia” totalmente desconhecida pelos chineses. O nome vasos longitudinais não tem nada a ver com meridianos e chama a atenção para outro fenômeno anatómico relevante para a construção do sistema de meridianos… o sistema vascular.

O desconhecimento da cultura e história chinesa continua a fazer-nos perder tempo com analogias simplistas e em última instância erradas.

Conclusão sobre inovações clinicas: um desafio às mentalidades atuais

Como devemos proceder face as constantes comparações ente acupuntura chinesa e sistema nervoso ou fascia? Continuamos a tentar enquadrar os conhecimentos chineses milenares (com todas as suas nunaces politico-religiosas) com teorias atuais que estão na moda. Mas será isso verdadeiro conhecimento cientifico ou simplesmente um engano do nosso cérebro para satisfazer as nossas fantasias românticas acerca do valor do conhecimento antigo?

Deve a acupuntura tradicional ser um modelo fidedigno a seguir? Deve ser um modelo de investigação base pronto a ser descartado face a novas teorias mais adaptáveis à anatomia humana? Ou é simplesmente inútil uma vez que o que conta é a forma como usamos a agulha dentro de um molde de raciocinio anatomo-fisiológico?

A acupuntura baseia-se na manipulação de agulhas no corpo. Ela nao tem um método próprio de raciocinio. O raciocinio clinico da acupuntura chinesa pertence ao pensamento de medicina chinesa. Como mostram as grandes variantes existentes desde acupuntura esotérica a procedimentos invasivos eco-guiados pode-se usar a sua ferramenta de trabalho da forma como quisermos mas sem um diagnóstico próprio.

E como enquadrar todas as incertezas acerca da fascia nestas comparações iniciais? Até que ponto a teoria está de acordo com o que se observa nas dissecações humanas? Poderá a fascia ser moldável de pessoa para pessoa e não apresentar um padrão tão definido quanto o sistema nervoso? Poderá uma experiência prévia com acupuntura ter moldado o cérebro de alguns investigadores para ver o que desejavam ver durante algumas dissecações?

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