Eficácia versus Beleza – parte I

Nuno Lemos ACUPUNTURA TRADICIONAL CHINESA Leave a Comment

Há uns anos tratei uma paciente com vertigens como queixa principal. Na altura, e apesar de conhecer outros pontos, usava como protocolo base para tratar vertigens ou tonturas 3 pontos de acupunctura: 20VG/baihui, 20VB/fengchi e 8E/touwei.

Os primeiros 3 tratamentos não surtiram qualquer efeito. Os sintomas da paciente continuavam exactamente idênticos ao que eram. Na quarta consulta decidi adicionar um outro ponto, extremamente importante (e que passou a fazer parte dos meus protocolos base no tratamentos desta queixa). Falo-vos do ponto 16VG/fengfu e que juntamente com o ponto 20VG/baihui constitui o protocolo do mar das medulas.

Falo-vos desta história para chamar a atenção para um facto: muitas vezes a adição de um simples ponto de acupunctura faz toda a diferença na evolução clínica do paciente. A eficácia, em alguns casos clinicos, pode realmente depender da escolha de um único ponto.

No entanto outros casos existem que não é assim. Ou seja, muitas vezes adicionam-se pontos de acupuntura num protocolo que não servem para nada em termos de eficácia. Não vão fazer diferença. Quanto muito só vão ajudar o acupunctor a ficar ainda mais burro (algo que o leitor irá compreender melhor nos textos futuros!).

Um exemplo do que quero referir faz respeito ao tratamento de muitos casos clínicos de dor que surgem na clínica. No tratamento da dor os pontos locais são os mais importantes. No entanto também existem imensos pontos distais bons para tratar imensas queixas álgicas. Basta ter uma ideia vaga do percurso dos meridianos para saber que existem pontos de acupunctura que tratam problemas distais.

O problema que eu levanto aqui é outro. Efectivamente se um acupunctor usar os pontos de acupuntura locais, o tratamento vai surtir sempre algum tipo de efeito benéfico mesmo que o resto do protocolo esteja completamente errado. A acupunctura não precisa ser bem feita para ser bem sucedida. A sua eficácia não depende da sua beleza.

O conceito de beleza num protocolo de acupunctura é algo que irei desenvolver num outro artigo. Resumidamente pode-se dizer que a beleza de um protocolo de acupunctura encontra-se na sistematização própria da MTC e na capacidade do próprio protocolo mostrar as regras através das quais foi escrito assim como a sua capacidade de nos informar acerca do caso clínico e dos procedimentos seguidos pelo acupunctor ao longo de toda a consulta. Mas como disse isto é algo que irei desenvolver noutro artigo. Interessa-nos aqui saber que a eficácia de um protocolo não depende da sua beleza.

Usemos um exemplo objectivo da prática clínica. No tratamento de dor na região lombar (lombalgia) foi feito o diagnóstico de vazio de yang do rim. O protocolo apresentado era constituído por 2 partes: uma parte com pontos locais para tratar a dor (pontos ashi) e outra com pontos vocacionados para tratar o padrão clínico (vazio de yang do rim). Nos pontos usados para tratar o vazio de yang do rim encontrava-se: 4VG/mingmen, 3R/taixi, 9BP/yinlingquan, 3F/taichong, 4IG/hegu.

Olhando unicamente para o protocolo de pontos ashi + 4VG/mingmen + 3R/taixi + 9BP/yinlingquan + 4IG/hegu + 3F/taichong nunca diria que o padrão clínico seria vazio de yang do rim, uma vez que o ponto 9BP/yinlingquan é usado para tratar padrões de humidade e a combinação de pontos 4IG/hegu e 3F/taichong são usados em padrões de estagnação de qi. O protocolo está claramente errado e viola os princípios terapêuticos a que deveria obedecer. Mas como tem os pontos ashi para a dor, muito provavelmente, o paciente irá sentir alívio das suas queixas. O protocolo está errado, é desprovido de qualquer conceito estético mas é eficaz… pelo menos até certo ponto.

Um dos meus trabalhos consiste em fazer análise de casos clínicos. Nestas funções eu analiso casos de clínica escola ESMTC e depois comunico ao aluno a análise que fiz do mesmo. A análise engloba tudo desde análise do interrogatório, justificação do diagnóstico, definição de princípios terapêuticos e análise das terapêuticas empregues.

Faz uns 2 ou 3 anos, calhou-me analisar um caso de um paciente que apresentava cefaleia. O responsável pelo tratamento daquela paciente fizera um protocolo de acupunctura com 24 pontos sem um único ponto na cabeça.

O protocolo foi eficaz mas era mais parecido com a mistura entre um grande acidente e algo ainda mais terrível do que com um protocolo de acupunctura. A quantidade de pontos escolhida tinha englobado pontos de acupunctura que realmente tratavam dor de cabeça. Bastava para tal conhecer o percurso dos meridianos e alguns pontos mais importantes.

Mas o protocolo era algo de pavoroso. Não se compreendia em que região era a dor de cabeça, ou se afectava a cabeça toda, não se compreendia o padrão clínico o que significava não se conhecer os seus possíveis factores/sintomas causais ou as características da dor, nem se compreendia que princípios terapêuticos secundários poderiam querer ser usados. Olhando unicamente para o protocolo só dava para perceber que a pessoa a fazer aquele protocolo não percebia muito do assunto.

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