Eficácia versus Beleza – parte 4

Nuno Lemos ACUPUNTURA TRADICIONAL CHINESA Leave a Comment

Quantos pontos são necessários para se dizer que o protocolo deixa de ser eficaz?

Entre pacientes que não respondem à acupunctura a pequenas diferenças entre protocolos que não foram ainda medidas em estudos e baseados unicamente na opinião, sempre condicionada, dos próprios acupunctores torna-se virtualmente impossível responder a esta questão.

Num protocolo de acupunctura de 11 pontos se 2 tiverem errados dificilmente o protocolo deixa de ser eficaz. Poderão ser igualmente eficaz a um protocolo com 11 pontos correctos? Outras questões igualmente interessantes se podem colocar.

Um protocolo está bem feito quando nele se conseguem ler os princípios terapêuticos que lhe deram origem e compreender a sintomatologia do paciente. Num artigo passado mencionei o vazio de yin com sintomas de secura (boca e garganta seca, por exemplo) e suores nocturnos. Neste caso os princípios terapêuticos seriam: a) nutrir o yin, b) nutrir líquidos orgânicos e c) contrair o yin.

Olhando para o protocolo 6BP/sanyinjiao, 3R/taixi, 6R/zhaohai e 6C/yinxi eu consigo perceber esses princípios terapêuticos e os sintomas que lhes deram origem. Assim tenho que 6BP/sanyinjiao e 3R/taixi nutrem o yin. Estes pontos juntamente com o 6R/zhaohai nutrem os líquidos orgânicos (o 6R/zhaohai é usado para boca e garganta seca) e o ponto 6C/yinxi pára os suores nocturnos (contrair o yin). Apesar de errado a eficácia do protocolo seria basicamente a mesma se tivesse mais um ou dois pontos que nada tivessem a ver com o caso.

Este exemplo leva-nos a outro ponto importante. Um protocolo pode estar bem feito mas isso não significa que seja eficaz enquanto que um protocolo errado pode ser bastante eficaz. O segredo está na definição dos princípios terapêuticos e no número de pontos.

Como já referi quantos mais pontos tem um protocolo mais probabilidade terá de estar correcto, uma vez que será maior a probabilidade de ter pontos que realmente tratem as queixas do paciente. Qualquer pessoa que queira ter o mínimo de eficácia com acupunctura só tem de fazer 2 coisas: usar pontos locais no tratamento da dor e usar protocolos com 20 a 30 pontos de acupunctura mais importantes.

Ironicamente esta afirmação também defende que quanto mais errado o protocolo, ou seja quanto maior o número de pontos no protocolo de acupunctura, maior a probabilidade de ser eficaz. Melhor que um protocolo com 24 pontos só mesmo um protocolo com 35 pontos.

Neste caso não é necessária a definição de princípios terapêuticos, na medida que estes ficam diluídos na sopa de pontos. No outro caso no entanto, o protocolo correcto começa a ser definido com base nos princípios terapêuticos.

Se o acupunctor definir mal os princípios terapêuticos mas construir bem o protocolo então pode dar-se o caso de fazer um protocolo correcto mas pouco eficaz. Eu explico usando exemplos clínicos. Vamos supor que temos um paciente com dor de cabeça que agrava com estados de instabilidade emocional. Neste paciente pode ser tão importante tratar a dor de cabeça (biao – a manifestação) como a instabilidade emocional (bem – a raiz).

Criando um protocolo unicamente para a dor de cabeça pode afectar a eficácia da acupunctura uma vez que o aspecto fulcral (acalmar a mente que gera a dor de cabeça) não está a ser tratado. Portanto não é só uma questão de saber qual o número de pontos errados num protocolo mas também os princípios que lhe deram origem. Por ser bonito não significa que seja eficaz.

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