Eficácia versus Beleza – parte 3

Nuno Lemos ACUPUNTURA TRADICIONAL CHINESA Leave a Comment

Como estes factores aumentam a ignorânica dos acupunctores?

Por esta altura espero que o leitor esteja convencido que a eficácia de um protocolo de acupunctura pouco tenha a ver com a beleza do mesmo. Em alguns casos a eficácia de um protocolo nem nos diz muito acerca dos conhecimentos do acupunctor. Qualquer pessoa que use pontos locais para tratar dor (mais de 90% das queixas na clínica) ou que saiba a localização dos 24 pontos mais usados em clínica consegue algum tipo de resultados.

Isto levanta um sério problema para o desenvolvimento do acupunctor e, muito particularmente dos alunos. Especialmente alguns alunos finalistas, que acham já não ter nada a aprender e que os professores são uma mistura de Neandertal mumificado com um livro muito mau ainda por escrever.

Ao fazer análise de casos, ou discutir protocolos com colegas ou amigos, e notar alguns problemas nos protocolos de acupunctura recebo como resposta “o paciente sente-se melhor”. Fico sempre feliz por saber que muitos alunos e outros tantos acupunctores são excelentes a constatar o óbvio.

O problema não está na eficácia (não totalmente!) mas no conteúdo do protocolo. Os acupunctores ao focarem-se na eficácia esquecem o conteúdo e com isso acabam por perder noção do que é ou de como se faz acupunctura. Com o tempo estupidificam. O futuro da maioria dos acupunctores é entrarem neste estado de transe, onde desaparece qualquer tipo de raciocínio lógico, onde a sistematização da MTC é abandonada a meia dúzia de conhecimentos dispersos fundados em opiniões pessoais e pensamento acrítico.

Como sempre estou a ser muito severo. Os leitores que já me conhecem sabem que por vezes gosto de apimentar as linhas dos meus artigos. Por muito apimentado que o artigo se encontre tenho, infelizmente, tristes exemplos que sustentam tamanha quantidade de especiarias.

Tive recentemente a possibilidade de assistir a uma palestra de um acupunctor muito conceituado no meio. Ao longo dessa palestra pude ver esse mestre apresentar os seus protocolos, cada um maior que o outro. Os protocolos variavam entre o número abusivo de 23 pontos e o número ainda mais abusivo de 26 ou 27 pontos.

Algumas alunas minhas que também assistiam àquela palestra, estavam maravilhadas com o que ouviam. Eu estava pasmado. Disse-lhes baixinho e com um sorriso maroto, que se alguma fizessem um protocolo daqueles num exame provavelmente teriam de repetir a cadeira (Infelizmente algumas decidiram começar a usar aqueles protocolos na clínica da Escola). Uma senhora que não me conhecia e ouviu o que lhes disse achou que eu era maluco. Desde quando se admite que alguém saiba acupunctura ou tenha um pensamento ligeiramente critico a tudo o que se diz? Ninguêm ali se deu ao trabalho de pensar que se esse Mestre dizia ter sucesso não era pelo que sabia de acupunctura mas pela quantidade de pontos que usava.

Outro exemplo é o famoso protocolo das energias perversas (ou será das energias negativas?). Eu fico perverso cada vez que vejo uma coisa destas. Este genocídio do bom senso parece ser uma última moda no tratamento de problemas mentais. Este protocolo é constituído por meia dúzia de pontos nas costas (pontos de acupunctura que pertencem ao ramo internos e externo da Bexiga. Existem algumas variações desta tão fabulosa técnica!).

Sobre este protocolo nem vou discutir a eficácia. A sua eficácia só é válida enquanto for moda. Infelizmente nestes meios, no Ocidente, a eficácia não é determinada por estudos ou experimentação mas tão somente pela moda. Enquanto os acupunctores acharem que estão a fazer uma grande revolução nas terapias chinesas e que determinada terapia é mesmo muito à frente continuam a usá-la. Sobre este protocolo vou só discutir a questão relacionada com a sua construção. Com a sua capacidade de passar informação.

Façamos então duas perguntas: olhando para meia dúzia de pontos nas costas o que é que nos conseguem dizer acerca do paciente? Que tem problemas mentais ou tem dor de costas? Bem vendo tantos pontos nas costas poderei assumir que são pontos locais e estão a tratar um problema nas costas.

Olhando para esses pontos de acupunctura nas costas o que poderei dizer sobre os sintomas causais do sintoma principal ou dos sintomas acompanhantes? Nada. Absolutamente nada. E atenção! Porque quando se diz que o protocolo dá informação sobres sintomas causais ou acompanhantes significa que se está a tentar tratar esses sintomas causais ou acompanhantes. Muitos acupunctores preferem mesmo gato a lebre.

A minha experiência como professor e analista de casos clínicos mostra-me que, volta e meia, surgem pequenas modas na utilização de alguns pontos. A combinação conhecida como 4 portões (3F/taichong e 4IG/hegu) é uma dessas combinações maravilhosas que se presta a modas. Uma vez serve para tratar vazio de yin outra vez qualquer tipo de dor de cabeça. O uso indiscriminado da combinação dos pontos 17VC, 12VC, 6VC também é bastante comum.

Além da eficácia do protocolo a inutilidade de alguns pontos também é relevante. É isto que tira beleza ao protocolo. O facto de se usarem pontos sem nexo. Como mencionei, na maioria dos casos poderá não afectar a 100% a eficácia dos protocolos. Estes terão sempre alguma eficácia na sua totalidade.

O problema destes protocolos surge quando aparece um doente como aquele que referi no inicio do artigo. Aquele doente onde 1 determinado ponto de acupunctura pode fazer toda a diferença. Aquele doente que responde melhor a uma variação da combinação a que mais estamos acostumados. Outro grande problema surge quando se pretende tratar um paciente com um caso clínico mais complexo e onde se pretende um protocolo personalizado (por norma a maioria dos meus protocolos são personalizados) onde os pontos terão como função tratar a queixa principal e sintomas particulares do padrão clinico. Obviamente que há sempre a possibilidade de se aumentar ainda mais o número de pontos do nosso protocolo. As probabilidades de sucesso aumentam.

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