Disfunção eréctil, “diz que faz bem” e fitoterapia chinesa – parte II

Nuno Lemos NOTICIAS E EVENTOS Leave a Comment

Agora convidava o leitor a encarar esta questão sob uma perspectiva de Medicina Integrada (MI). Por Medicina Integrada (MI) compreende-se uma abordagem de estudo em que se contemplem as abordagens da Medicina Ocidental (MO) e da MTC. Apesar de diferentes não são incompatíveis – algo difícil entender para alguns profissionais de saúde -.

Este tipo de abordagem é particularmente interessante quando se pretendem desenvolver estudos de investigação científica e explorar novas formas de intervenção. A comparação das causas da disfunção eréctil na MO e na MTC pode dar novos horizontes para uma abordagem integrada e para uma maior capacidade de investigar a real eficácia das drogas tradicionais.

Na reportagem do Diário de Notícias[i] são descritas várias causas: depressão, causas neurológicas, causas vasculares, diabetes e obesidade, problemas prostáticos e causas hormonais. Na MTC a impotência é considerada uma doença conhecida como “falta de vontade do yang”[ii]. Os seus padrões clínicos podem ser vazio de yang, vazio de qi, colapso de qi ou padrões de calor como humidade-calor. O tratamento é definido mais pelos padrões clínicos do que pelas doenças, apesar de existirem drogas para sintomas específicos como o fructus corni officinalis.

Podemos fazer várias perguntas: o ginseng actua da mesma forma quando a causa é a depressão ou quando a causa são poblemas neurológicos ou hormonais? E dentro de cada uma destas categorias qual a relevância do padrão clínico? Atendendo ao que sabemos desta droga é de supor que ela seja mais útil a pacientes diabéticos com padrões de vazio de qi e yin – marcado por falta de líquidos orgânicos (Jin Ye) – do que para pacientes com problemas cardiovasculares – hipertensão por plenitude calor -, por exemplo.

Por outro lado e face às diferentes causas temos de considerar diferentes drogas. Se a depressão for a causa da impotência e o padrão clínico associado a estagnação de qi, então tem mais lógica usarmos drogas que acalmem a mente e movam o Qi do Fígado. A ausência deste tipo de estudos e a forma como as drogas chinesas são classificadas, aliadas à total falta de conhecimentos da matéria por parte dos médicos deveria chamar-nos a atenção para os perigos subjacentes a este tipo de reportagens.

A análise de uma droga isolada não nos permite compreender as potencialidades da fitoterapia chinesa e muito menos o facto de que a sua classificação e os seus resultados estão muitas vezes dependentes do tipo de combinação do que da droga isolada. Também não nos permite compreender quais os tipos de casos mais indicados: certamente que pacientes muito tímidos e com falta de auto-estima devido a um conjunto de circunstâncias sociais muito dificilmente se tratará com ginseng.

Apesar dos estudos não responderem a estas questões, existem estudos que começam a lançar algumas luzes sobre as vantagens desta droga no tratamento da impotência. Como em tudo o leitor não deve usar esta informação de forma a auto-medicar-se. Procure sempre um especialista em Medicina Chinesa.

Um estudo, “Clinical efficacy of korean red ginseng for erectil disfunction”[iii], foi publicado no International Jornal of Impotence Research. No estudo foram criados 3 grupos (30 pessoas em cada grupo): 1 grupo tratado com trazodone, outro com placebo e outro com ginseng. Os resultados mostraram que não existiam diferenças estatisticamente significativas em parâmetros como ejaculação prematura, número de relações sexuais ou erecções matinais que mas que havia diferenças estatisticamente significativas relativas ao prazer sentido durante a relação ou à rigidez pénica. Também se observaram alterações hemodinâmicas pénicas nos pacientes que tomaram o ginseng durante longos períodos de tempo. Neste estudo não se encontraram efeitos secundários.

Outro estudo[iv] mais recente que comparava o efeito do ginseng com um placebo notou diferenças estatisticamente significativas em parâmetros como rigidez, penetração e manutenção da erecção durante a relação sexual. Um outro[v] concluía que o ginseng pode ser um método alternativo eficaz no tratamento da disfunção eréctil masculina após observar melhorias na rigidez pénica, penetração e manutenção da erecção durante a relação sexual. Mais recentemente foi conduzido um estudo de revisão[vi] sobre esta droga no tratamento da disfunção eréctil. Nesse estudo os autores concluíram que, apesar de existência de evidências a favor da eficácia clínica do ginseng, mais estudos são necessários devido a problemas como tamanho das amostras, qualidade metodológica.

A qualidade metodológica é o problema base de qualquer estudo e está relacionada com o que tenho vindo a discutir. Saber diferenciar os grupos de acordo com as causas da disfunção eréctil de acordo com a Medicina Chinesa e a Medicina Ocidental. Diferenciar grupos de acordo com as idades também é relevante. Um paciente com 30 anos responde de forma diferente que um paciente com 60 anos.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS


[i] Cristão, Catarina. A ajuda dos remédios naturais na luta contra a impotência sexual masculina. Diário de Notícias. Ano 145º. Nº 51 267. 16 de Agosto de 2009

[ii] Deng, T. Practical Diagnosis in Traditional Chinese Medicine. Churchill Livingstone. 1999. Edinburgo.

[iii] Choi H.; Seong D.; Rha K. Clinical efficacy of korean red ginseng for erectil disfunction. International Jornal of Impotence Research. Setembro, 7(3): 181-6. 1995

[iv] Andrade E.; Mesquita A.; Claro A.; Andrade P.; Paranhos M.; Srouqi M. Study of the efficacy of Korean Red Ginseng in the treatment of eréctil dysfunction. Asian J. Androl. Mar; 9(2): 241-4. 2007

[v] Hong B.; Ji Y.; Hong J.; Nam K.; Ahn T.; A double-blind crossover study evaluating the efficacy of Korean red ginseng in patients with erectile dysfunction: a preliminary report. The Journal of Urology. Nov; 168 (5): 2070-3. 2002.

[vi] Jang D.; Lee M.; Shin B.; Lee Y.; Ernst E. Red ginseng for treating erectile dysfunction: a systematic review. British Journal of Clinical Pharmacology. Oct: 66(4): 444-50. 2008.

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