Correlação e causalidade

Correlação e causalidade: erros no diagnóstico

Nuno Lemos MTC - DIAGNÓSTICO MEDICINA CHINESA 0 Comments

Um diagnóstico em medicina chinesa é formulado quando existem um determinado número de sintomas e sinais clínicos e quando existe uma clara relação entre esses sintomas e sinais clínicos. O que significa que algumas vezes estamos em frente a fenômenos de causalidade e outras vezes a fenômenos de correlação. Saber distinguir correlação e causalidade é essencial no diagnóstico.

Causalidade e correlação

Como o nome indica causalidade implica uma ação causal. A União Soviética entrou em guerra com a Alemanha porque a Alemanha invadiu a URSS. Existe uma relação causal imediata.

Correlação não implica necessariamente a existência de causalidade. Estamos, neste caso, perante dados que parecem relacionar-se mas que não tem qualquer relação. Por exemplo, eu posso usar as duas afirmações verdadeiras:

1 – A economia chinesa tem vindo a crescer.

2 – Eu estou a ficar mais velho.

São duas verdades (para muito custo pessoal e felicidade de alguns chineses) mas existe alguma relação causal? A economia chinesa está a crescer porque eu estou a ficar mais velho? Ou eu estou a ficar mais velho porque a economia chinesa está a crescer?

Neste caso temos dois dados verdadeiros que estão correlacionados mas não tem nenhuma causalidade (este exemplo ridiculamente simples tem como objetivo ser divertido e informativo).

Correlação e causalidade no diagnóstico chinês

Um paciente apresenta os sintomas de astenia (cansaço físico) e palpitações. Muitas vezes pegamos nestes sintomas e diagnosticamos um vazio de qi do coração pois são sintomas que pertencem ao padrão de vazio de qi (astenia) do coração (palpitações):

Mas na realidade é um diagnóstico apressado (os alunos caem sempre neste erro e deve-se à forma errada como é ensinado o diagnóstico) e sem qualquer fundamento. Estamos a olhar para dois sintomas que podem não ter qualquer causalidade entre eles.

Caso o paciente refira que sente um cansaço grande e quando se sente mais cansado surgem palpitações então temos uma provável relação causal. Esta relação causal é muito importante. Porque o paciente também pode referir que sente muitas palpitações e quando estas agravam surge um grande cansaço físico.

Ou seja inverte-se a causalidade dos sintomas e o padrão que afeta o paciente pode ser completamente diferente. Neste caso podem existir outros padrões que afetam o coração (estagnação de qi, humidade calor, etc…) na origem das palpitações. Tonificar o qi neste paciente teria sido altamente contraproducente.

Correlação e causalidade sem história clinica

Outro problema está na incapacidade de se construir uma boa anamnese, desenvolver um interrogatório capaz, relevar a importância dos dados estatísticos e a história clínica do paciente.

Há uns anos chamaram-me para ajudar num caso clinico na clinica escola da ESMTC (onde dava aulas). O paciente apresentava lombalgia, surdez e poliúria. O diagnóstico que todos desconfiavam era vazio de yang do Rim. É assim que nos ensinam a pensar: tem os sintomas, pertencem à esfera de uma padrão clinico logo o paciente tem esse padrão clinico. Nada mais desfasado da realidade clínica porque não existe causalidade entre nenhum sintoma. E nãos e consegue estudar causalidade sem se estudar a história clinica do paciente.

Quando estudei a história clinica do paciente notei: lombalgia do lado direito com início há 2 semanas, surdez do ouvido esquerdo por exposição prolongada a sons altos e poliúria provavelmente desencadeada por consumo elevado de água.

Ou seja não existe nenhuma relação causal entre sintomas seja essa relação atual (lombalgia agrava zumbidos, por exemplo) ou histórica (primeiro surgiu a lombalgia e mais tarde agravou com sintomas urinários). Um dos sintomas, poliúria, não tem expressão clínica relevante (basta o paciente não beber 2 litros de água por dia e não comer sopa que o débito urinário começa a diminuir); outro dos sintomas não tinha tratamento, zumbidos por exposição a sons altos; e a lombalgia tinha surgido com um mau jeito.

Correlação e causalidade na aplicação terapêutica

Um paciente surge na clinica com dor e irritabilidade. O diagnóstico é imediato: estagnação de qi do fígado. Tal como aconteceu no exemplo do coração devemos perguntar o que causa o quê.

É comum pacientes com dor prolongada sentirem-se irritados. Quem não se sente? Mas nesse caso a dor causa a irritabilidade. Não há necessidade de perder tempo a fazer nenhum diagnóstico que só nos vai levar por tratamentos mais morosos, dispendiosos e clinicamente menos úteis.

Os princípios terapêuticos e a relevância que se dá a cada um deles vai ser diferente ao ter noção do fenômeno causal entre dor e irritabilidade.

Conclusão sobre correlação e causalidade no diagnóstico chinês

Na clinica real do dia-a-dia o doente apresenta, quase sempre, uma constelação de sintomas complexa e uma história clinica diversificada. Sem a consciência da importância do fenômeno causal é fácil ao especialista perder-se em diagnósticos apressados que o vão levar a princípios terapêuticos errados e aplicação de terapêuticas desfasadas das reais necessidades dos pacientes.

A capacidade de reconhecer esse fenômeno vai permitir ao terapeuta encontrar os 4 ou 5 sintomas e sinais clínicos que são relevantes, simplificando a leitura e compreensão da complexa história clinica do paciente ajudando a definir um tratamento mais objetivo.

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