Consultas de acupuntura médica: já são 3000

Nuno Lemos LOBBIES E MTC 2 Comments

Esta sexta-feira foi publicada uma notícia no Diário de Notícias intitulada “SNS faz 3000 consultas de acupunctura todos os anos”[i]. Como o título afirma claramente, existem cada vez mais médicos a dar consultas de acupuntura médica nos hospitais públicos. Médicos, podem dar consultas de acupuntura médica em hospitais públicos com formações de 300 horas, podem dar consultas privadas, não pagam IVA e ainda podem vir à televisão dizer que aceitavam a acupuntura no SNS se esta fosse provada cientificamente. Basicamente a classe médica tem carta branca para dizer e fazer o que quiser.

A lei para médicos e para os outros

Eu continuo com uma formação base de quase 5000 horas, a ter de pagar IVA e sem poder exercer em hospitais públicos ou em centros de saúde ou em clínicas da dor e continuo a ser tratado como um pseudo-profissional por políticos com curso de medicina.

Mas esta reportagem só vem fortalecer os argumentos usados no meu artigo em que acusava o médico Vaz Pinto de cinismo ao defender que a acupuntura só deveria ser integrada no SNS se fosse provada a sua eficácia. Na altura chamei a atenção para esta manobra de distracção que, como todas as outras tomadas pela classe médica, tenta atrasar a regulamentação e a inserção de profissionais da área no SNS de forma a garantir um lugar previligiado aos médicos. Se a acupuntura não está provada cientificamente o que fazem estes médicos no SNS? E se afinal já está provada cientificamente porque é que eu não tenho acesso a esse tipo de trabalho? Especialmente quando tenho mais formação na área que os médicos?

A posição histórica da classe médica

Historicamente a classe médica tem-se pautado por um discurso que visa atrasar a acreditação destas áreas ao mesmo tempo que procura formar profissionais e tomar conta do mercado. Inicialmente a acupuntura era tratamento vudu. Pouco depois de ser classificada como VUDU, pelo bastonário da Ordem dos Médicos a acupuntura começava a ser ensinada a médicos e era criada a Sociedade Portuguesa Médica de Acupuntura. Nada mal para VUDU!

A seguir ao argumento VUDU vem a luta do ato médico, onde os médicos tentam dominar determinadas técnicas de forma a impedir a prática profissional da acupuntura (e não só!) aos acupuntores. A Ordem dos Médicos chegou mesmo a propor a aceitação destes profissionais caso ficassem na dependência dos médicos. A classe médica só consegue aceitar a existência de técnicos de acupuntura, ou seja, profissionais submissos ao poder médico. Como um leitor do blogue identificado como médico escreveu:

“É altura que as pessoas se assumam, e não engane os utentes . Uma vez por todas é a culpa exclusiva dos ditos Licenciados se intitularem DR e fazer a confusão com os Médicos, parece que os tecnicos em acupunctura tem vergonha de serem bons tecnicos, precisam usar o sombra do DR. Eu sou médico e tenho mestrado em acupunctura e assisto todos os dias esta situação !
TENHAM CORAGEM EM ASSUMIR QUE NÃO SÃO MÉDICOS PARA OS DOENTES!![i]”

Na altura recebeu uma resposta em 2 artigos que o leitor também pode apreciar. Uma vez que os profissionais nunca deixaram de defender a sua autonomia profissional e conseguiram uma lei que os regulamentava a classe médica decidiu usar outros métodos.

Um deles consistiu em opor-se ao projecto-lei e após a aprovação deste, tentar atrasar os trabalhos da comissão de regulamentação e outro consistiu em procurar novos argumentos uma vez que o argumento VUDU já não poderia ser usado com tanta convicção. O argumento de Vaz Pinto de aceitar os tratamentos de acupuntura provados cientificamente é a última  cartada pública. Mas não é a última cartada nesta já longa metragem. Este artigo, publicado no Diário de Noticias, vem desmentir os argumentos de Vaz Pinto, tal como eu já tinha feito noutro artigo deste blog. Fica agora a questão: porque é que profissionais com 300 horas de formação podem exercer livremente em hospitais públicos e profissionais com quase 5000 horas são discriminados? Qual a lógica da oposição à regulamentação quando ela iria permitir melhor formação e profissionais mais competentes? Como já defendido o problema da inserção da acupuntura no SNS não somente é científico mas também sociológico.

Argumentos médicos para consultas de acupuntura médica

Alguns argumentos, por muito ridículos que pareçam continuam a subsistir. Na mesma reportagem é referido que o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, «defende que só os médicos devem usar esta técnica porque “tem de haver um diagnóstico antes. Pode haver patologias complicadas que devem ser tratadas”. E refere que não pode ser aceite sem formação médica só pela filosofia gratuita.»

Há dois pontos relevantes: primeiro existe um excesso de filosofia na Medicina Chinesa e esoterismo que é nocivo em termos clínicos e segundo existe a necessidade de se fazer um bom diagnóstico médico. Porque é que estes argumentos não tem sustentação credível relativamente à acupuntura?

Em primeiro lugar porque a acupuntura não se incompatibiliza com tratamentos médicos nem impede o médico de fazer um bom diagnóstico (a maioria dos pacientes que se vão tratar com acupuntura já foram vistos por vários médicos e tem diagnóstico definido).

Em segundo lugar porque muitas vezes o diagnóstico médico não é necessário para se definir um tratamento por acupuntura. Um exemplo muito simples: a estenose do canal lombar e a hérnia lombar são dois diagnóstico diferentes e relevantes para muitas terapêuticas. Mas dois pacientes diferentes com estes diagnósticos e a mesma sintomatologia deverão receber aproximadamente o mesmo tratamento de acupuntura.

Em terceiro lugar, a critica à filosofia barata não pega por vários motivos: muitos protocolos de acupuntura médica são provenientes de fontes dessa mesma filosofia barata; porque a incompreensão filosófica e clinica da medicina chinesa, assim como o esoterismo ignorante, que abunda nestas áreas é claramente uma consequência da falta de regulamentação que permite qualquer tipo de cursos. Isto torna a oposição de Ordem dos Médicos relativamente à regulamentação insustentável.

Interesses médicos, regulamentação e uma classe sem rumo

Apesar de já ter demonstrado a falsidade destes argumentos noutro artigo, acho que vale a pena recapitulá-los: o diagnóstico que deve existir antes foi formulado pela medicina chinesa. Os médicos não o sabem fazer. O tratamento de acupuntura não inviabiliza o diagnóstico médico nem se contrapõe a ele. O tratamento de acupuntura não se incompatibiliza com outros tratamentos médicos. Mas como já perguntei noutros locais se esta afirmação do bastonário é verdadeira como explicamos que a acupuntura tenha sido inventada, desenvolvida e aperfeiçoada por uma cultura sem diagnóstico médico ocidental? Realmente impressionante. A triste parte da filosofia barata não será discutida uma vez que nem sequer foi definido o que se entendia por filosofia barata.

O que realmente me entristece não é ver que os médicos andam a fazer o trabalho deles. No fundo a classe médica só sabe trabalhar com outros profissionais quando estes lhes são submissos. Ela só entende relações de poder e nunca de associação. Por isso se fala sempre em terapias alternativas[ii] e a dependência crónica do diagnóstico médico ou da formação médica. A classe médica só faz o seu papel de defender os seus interesses corporativistas.

O que realmente me entristece é ver que existem imensas pessoas dentro da Medicina Chinesa que se opõem ao processo de regulamentação, que se opõem à formação de uma classe profissional caracterizada por uma formação sólida e rica em nome de um qualquer valor de direito mais populista e opurtunista que democrático. Quem agradece é a classe médica. É sempre bom sabermos para quem trabalhamos e que interesses servimos. No final só consigo pensar… já são 3000.

NOTAS FINAIS


[i] Diário de Notícias, 9 Outubro de 2009, “SNS faz 3000 consultas de acupunctura todos os anos”.

[ii] Neste aspecto referir a citação da médica Helena Ferreira, já criticada neste blog, quando afirma «tem sucesso relativo, mas é útil quando as pessoas já tentaram todas as outras abordagens. Na gravidez e noutras condições em que o uso de medicamentos é dificultado, a acupunctura é uma alternativa.» Diário de Notícias, 9 Outubro de 2009, pág. 16.

Comments 2

  1. Boas, Nuno!

    Tenho apreciado imenso o seu trabalho “virtual”, os seus comentários e pensamentos, contribuições importantes para o desenvolvimento da “arte das agulhas” 🙂
    Mas, neste meu comentário, que em nada quer contrariar o seu pensamento, relativamente à questão da introsão dos médicos na acupunctura, só quero relevar para o seguinte: O Dr., o titulozinho de que muitos usam e abusam…. A verdade, é que conheço “milhares” de casos de doutores da treta! Como consumidora de terapias nao convencionais, irrita-me profundamente o uso de um título (que na minha modesta opinião não faz nem define ninguém!), para o qual não tem legitimidade para o usar…Relembro que e a titulo de curiosiosidade que, por decreto régio de D. Leonor (e nunca revogado…) são autorizados os títulos de doutor, aos médicos, padres e advogados”! 🙂
    Vivemos num país em que toda a gente se poe em bicos de pés, vive-se de aparências, e do que fica bem no retrato, descurando-se o real valor das coisas e das acções, propriamente ditas! Se a Acupunctura, não é sequer reconhecida, em Portugal, como formação, superior que seja, a propósito de quê, vem o formado acupunctor, apresentar-se como doutor? É pena, porque apesar de não terem razão nenhuma, estas questões são achas para a fogueira que a classe médica quer incendiar….

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